Mas to me divertindo, ué. Não é isso que mandam
a gente fazer? Quando a gente chora e escreve aquele monte de poesia profunda.
Quando a gente se apaixona e tudo mais e enche o saco dos amigos com aquela
melação toda. Não fica todo mundo dizendo pra gente parar de tanto drama e se
divertir? Poxa, to só obedecendo todo mundo. Não é isso que todo mundo acha
super divertido? Beber e fumar, e beber, e fazer sexo sem amor, e beber e fumar
e dançar e chegar tarde e envelhecer e não sentir nada? Sabe, no começo doeu
não sentir nada. Mas eu consegui. Eu não sinto nada. Nada. Nem pena do mundo eu
consigo mais sentir. Minha pureza era linda, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia
ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da minha alma pelo
simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já era. É isso que chamam
de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja. Bate aqui no meu peito, Sentiu o
barulho de granito? Quebrou o braço? Desculpa. Hoje tem risada alta, tem
festinha, tem maquiagem e música. O senhor promete que não me julga? Eu sei que
você se atrapalha, liga aqui pra cima e fica até mudo. São tantos nomes, não é?
Mas é só fazer que nem eu: chama todo mundo de “o outro”. Todos são outros.
Porque o de verdade, Zé, o de verdade não existe. A gente chora, escreve lá
umas poesias profundas, chora, mas um dia a gente acorda e descobre que esse aí
não existe não. Amanhã é um novo dia. Um novo outro qualquer. Eu queria te
dizer que eu sinto muito, Zé. Mas eu não posso te dizer isso porque a verdade é
que eu não sinto mais nada. Nadinha, Zé.
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